“Ainda Estou Aqui” e as torcidas organizadas: não existe “ditadura do bem”

“Ainda Estou Aqui” e as torcidas organizadas: não existe “ditadura do bem”

março 2, 2025 0 Por editor

Por Luciano Lima

Estou profundamente feliz com as três indicações ao Oscar recebidas pelo filme brasileiro “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles e que tem nos papéis principais as atrizes Fernanda Torres e sua mãe Fernanda Montenegro, como Eunice Paiva em diferentes fases da vida, e o ator Selton Mello no papel de Rubens Paiva. O filme vai concorrer aos prêmios de Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz.

Dentro de um momento normal de temperatura e pressão, são indicações que deveriam estar sendo comemoradas em todo o Brasil. Afinal de contas, não é fácil furar a bolha quase impenetrável da forte, e muitas vezes desleal, indústria cinematográfica americana. Mas, infelizmente, com o país dividido, narizes torcidos estão em todas as “esquinas”. É uma pena!

É preciso sair do provincianismo e ampliar a visão sobre a importância das possíveis conquistas do filme “Ainda Estou Aqui” para o Brasil e para a nossa democracia. Mas antes é preciso escantear a hipocrisia e tentar se curar do doentio extremismo ideológico. Moeda não tem apenas um lado!

NÃO EXISTE “DITADURA DO BEM

Torcer para que o filme do diretor Walter Salles saia vitorioso do Oscar 2025 é fortalecer o debate honesto sobre liberdade e fazer com que alguns políticos olhem para o próprio telhado. Afinal, não existe “ditadura do bem”!

Os regimes ditatoriais, sejam eles de esquerda ou direita, também se utilizam de mecanismos democráticos para disfarçar a natureza autoritária, como a realização de eleições supostamente livres e seguras, imprensa relativamente independente e redes sociais para todos disfarçadamente controladas. Qualquer semelhança é apenas mera coincidência.

Indo direto ao ponto, é preciso entender e reconhecer que houve ditadura militar no Brasil entre 1964 e 1985. Aliás, não existem regimes ditatoriais sem o apoio das forças armadas. E ainda sendo mais direto ao ponto, o ex-deputado Rubens Paiva foi assassinado. Negar tal acontecimento é ignorância!

“AINDA ESTOU AQUI” E A PROPAGANDA IDEOLÓGICA

As esquerdas no Brasil têm utilizado o filme “Ainda Estou Aqui” como propaganda ideológica para cutucar os bolsonaristas e os militares, mas se esquecem que Lula flerta e defende líderes de regimes ditatoriais, como os que comandam com mãos de ferro e muito sangue a Venezuela, Cuba e Nicarágua. Falam tanto em paz e liberdade, mas não reconhecem os assassinos do Hamas como um grupo terrorista. Assim como não existe “ditadura do bem”, não existe “Ódio do Bem”.

Portanto, estou torcendo para a vitória do filme brasileiro neste domingo (2), que pode se transformar em um dia histórico para o cinema nacional. Não dá para ficar preso nas mãos dos extremistas. Precisamos é de um debate honesto sobre liberdade e democracia, o que infelizmente não está acontecendo no Brasil dos tempos atuais. E lamentavelmente, boa parte da imprensa, que sempre combateu a mordaça, tem tido um comportamento triste e deplorável.

AS CHANCES

Dito tudo isto, sinto que o cinema brasileiro tem tudo para sair vitorioso do Teatro Dolby, em Los Angeles. Sabemos que o Oscar é negócio. A premiação é usada para ampliar a influência do cinema americano nos mais diversos cantos do planeta e o mercado brasileiro sempre teve portas escancaradas para Hollywood. Mas tenho certeza que vamos sair com pelo menos uma estatueta. De mãos vazias, seria uma imensa maldade com o filme “Ainda Estou Aqui”.

*Luciano Lima é historiador, jornalista e radialista

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