Mais um capítulo da batalha digital
maio 10, 2023Agora foi a vez do Telegram fazer campanha contra o projeto das ‘fake news’
A terça-feira trouxe uma surpresa para os usuários do Telegram no Brasil. A exemplo do que fez o Google no dia esperado para votação do famoso e polêmico PL das ‘fake news’, o Telegram disparou para todos os usuários um recado contundente sobre a discussão.

O ministro da justiça, Flávio Dino, reagiu imediatamente. O Telegram já havia sido notificado pela Polícia Federal para fornecer informações sobre contas que espalham conteúdo de ódio, como movimentos neonazistas. Não atendeu ao pedido do governo e seguiu como se nada tivesse acontecido. A estratégia é óbvia e não é a primeira vez que aparece no debate público: regulação é equiparado à censura.
Discurso tacanho
Dizer que regulação é sinônimo de censura é um argumento que não sobrevive ao exame simples dos conteúdos que são veiculados diariamente sem que as plataformas tenham qualquer preocupação com as consequências. Não é possível defender – sob o argumento da liberdade de expressão – que uma pessoa divulgue técnicas de extermínio ou suicídio e as empresas que disponibilizam as redes acreditarem que o conteúdo seja legítimo. Não é possível que não sejam sensíveis ao que aconteceu em movimentos como a famigerada baleia azul.
O algoritmo é burro quando interessa
É comum você comentar algo que queira fazer nas férias e, no minuto seguinte, ser bombardeado no celular ou no email com ofertas relacionadas ao que comentou. Você já pesquisou um site ou termo que precisa ou tinha curiosidade e a máquina passar a enviar informações correlatas. O algoritmo aprende rápido quando você pretende sair em férias, sabe se você viaja só ou com mais pessoas, sabe se você quer hotel ou camping e é capaz de antecipar se a tendência é de sol ou chuva no outono. No entanto, os donos das plataformas querem convencer a todos que é impossível retirar previamente conteúdos ofensivos pelo fato de que detectar os elementos é difícil. Os perfis expõem armas, símbolos nazistas e o que mais for classificado como ignorância ou ódio puro mesmo, e… tudo bem. Deixa lá.
Reação tímida
O Ministério informou que vai notificar os responsáveis pelo Telegram e avalia novas medidas judiciais. Notificar apenas é o mesmo que tratar uma fratura no fêmur com creme esfoliante. Não dará em nada, mas o movimento de Dino é revelador da desproporção entre as multinacionais de tecnologia – ou ‘bigtechs’ – e o alcance dos governos. Essas empresas comportam-se como se fossem Estados (multi)Nacionais onde as leis são definidas internamente e prevalece o direito à soberania e autodeterminação. Só que as “leis” não são públicas, o poder não é discutido e todas as regras do jogo podem ser alteradas conforme o humor do dono da empresa sem que qualquer pessoa do lado de fora pudesse fazer algo… a não ser apagar o aplicativo, usar programas alternativos e torcer para que muita gente fizesse o mesmo. Ah.. e torcer para que a migração de uma plataforma nova e pequena não a transforme em nova gigante com o mesmo apetite.
Foto: Lula Marques/ Agência Brasil



